27 de dezembro de 2010

A necessidade da estrutura na escrita de romances


o post anterior, falei sobre a importância da estrutura da história, e dei um exemplo de uma estrutura comum.
Após um longo (e merecido, para completar o clichê) período de férias, gostaria de retomar o assunto, até porque "a ficha demorou a cair" muito para mim sobre este assunto, e acho que muitos escritores provavelmente têm a mesma dificuldade, mesmo sem saber.
Primeiramente, gostaria de reforçar a necessidade (atenção, não é "importância", é "necessidade", mesmo) de conhecer e utilizar a estrutura para escrever qualquer texto literário.
Começando pelo básico: "Início-Meio-Fim", não é uma estrutura para uma estória. Uma lista de supermercado já tem isso. E, no entanto, tem muita gente que escreve estórias justamente com esta estrutura, por incrível que pareça - eu sei, já li muitas assim!
Um exemplo? "Era uma vez três porquinhos que saíram da casa de sua mãe para viverem por conta própria (Início - apresentação do status quo), construíram suas casas (Meio - desenvolvimento do tema) e viveram felizes para sempre (Fim - conclusão do tema).
"O escritor original não é aquele que não imita ninguém, mas aquele que ninguém consegue imitar"
François-René de Chateaubriands, escritor fundador do Romantismo na França
A estrutura mínima de uma estória seria: "Início - Conflito - Desenvolvimento do conflito - Resolução do conflito - Conclusão".  Sem perder tempo com mais detalhes (acho que ficou bem claro...), uma estória sem conflito não é uma história, não dá certo falar de porquinhos sem falar também do lobo.
Acredito que todo escritor, por mais iniciante que seja, irá concordar que
uma "estrutura mínima" como esta aparece em qualquer história, salvo raríssimas e honrosas, ou nem tanto, exceções.
Também acredito que qualquer escritor pode ver que "seguir esta estrutura" não vai "engessar seu trabalho", não vai "ferir sua arte" nem "podar sua criatividade".
Pois bem: o mesmo se aplica à estrutura proposta por Christopher Vogler, que apresentei brevemente no post anterior. A questão não é que minha estória precise se ater à estrutura sugerida por Vogler, muito pelo contrário: se minha estória for bem escrita, ela, digamos, "automaticamente" segue a estrutura.
Parece metafísico? Concordo! Mas isso ocorre justamente porque Vogler baseou seu trabalho nos estudos de Joseph Campbell, que estudou inúmeros mitos e extraiu deles a "estrutura comum", os pontos principais da estória, além de outras coisas muito interessantes para os escritores - como os arquétipos mais comuns nestas histórias, de que podemos falar em posts futuros.
Dito isso - e, se você não estiver ainda convencido(a), leia "A Jornada do Escritor" do Vogler, que defende a idéia bem melhor do que eu... - gostaria de destacar alguns pontos importantíssimos sobre a estrutura das histórias:
  • Estrutura é TRILHA, não TRILHO. Se você seguir ela demais, ela engessa sua narrativa, e torna a estória cartesiana, sem graça e sem inspiração. Se por outro lado você não segui-la, você pode (e normalmente vai) se perder!
  • A estrutura pode ser utilizada antes da produção de texto (é o ideal), para definir os pontos principais da estória, ou depois da produção, para descobrir falhas em suas tramas.
  • Erro comum: a estrutura é para o autor organizar seu trabalho, não para o leitor! Você planeja com a estrutura, e na hora de escrever, se você trabalha direito, a estrutura "some" do livro.
  • Ao escrever, a natureza criativa do trabalho muitas vezes provoca alterações na estrutura planejada. Isso é normal, a estrutura é algo dinâmico, ajustável conforme a necessidade da estória.
  • A estória final pode ter mil meandros a mais, e pode ter vários pontos a menos. Nem tudo da estrutura precisa ser contemplado na estória. A estrutura sugerida por Vogler tem 12 pontos, mas você pode fazer uma estória excepcional usando esta mesma estrutura, tirando três ou quatro pontos dela, por exemplo.
  • Os obstáculos, locais e conflitos das estruturas podem ser externos ou internos, físicos ou psicológicos. O "herói" pode ser um homem comum, o "mundo especial" pode ser uma mudança forçada de atitude, a recompensa pode ser apenas o aprendizado.  Abra sua mente!
  • A ordem cronológica implícita na estrutura não precisa ser a ordem final de leitura do livro. Ao escrever, o autor tem liberdade total para trocar de ordem qualquer dos pontos da estrutura - desde que isso faça sentido em sua obra, é claro!
  • É possível escrever uma estória sem utilizar uma estrutura? Sim, é claro!  Acabei de fazer isso em meu romance (ainda inédito) "As incríveis memórias de Samael Duncan". Só que, quando terminei - após MUITO suor, trabalhar sem estrutura é terrível! - descobri que o resultado, afinal, seguia uma estrutura muito bem definida; a estrutura "nasceu" a organização natural do trabalho. A estrutura é uma coisa intrínseca ao romance, quer você queira, quer não, ela estará lá.
Pensando assim, podemos ter a impressão oposta: Se a estrutura é TÃO flexível, para que serve, afinal?  Ora, como dizia um general famoso, "Nenhuma batalha nunca foi ganha de acordo com o plano... Mas nenhuma batalha nunca foi ganha sem um plano!". 

No fundo, é apenas, e exatamente, isso: se você quer escrever profissionalmente, trabalhe profissionalmente.  Trabalhando de maneira organizada seus resultados sairão mais rápido e com melhor qualidade - que é o que se espera de um profissional, em qualquer área.
Gostou?

7 comentários:

Sueli disse...

Gostei e muito! Após muitas tentativas, estou conseguindo escrever ficção, mas não sem sofrimento. Conto uma historia até o fim e depois vou "trabalhando" os personagens e mudando tudo, por abrir a mente. Você acha que é uma forma de estrutura? Um abração

Alexandre Lobão disse...

Cara Sueli,
Se entendi bem, o que você falou deve ser o assunto de minha próxima postagem: O que fazer depois de preparar a estrutura? Após estruturar a história, a gente a escreve (cena por cena), e depois volta ao início e vai "trabalhando", completando, incrementando em diversas passagens, ou "tratamentos" (para usar o jargão da área).
Em outras palavras, a estrutura é o esqueleto que segura a história, a história em si (o que você falou que "conta até o fim") são os músculos que dão a força básica à narrativa; e o "trabalhar a história" é incluir os detalhes que dão a beleza ao corpo - pele, cabelos, etc. :)
[]s

Denis disse...

Alexandre, realmente, planejar uma estrutura poupa muito trabalho. Escrevo meu primeiro romance agora, e senti a falta que faz um bom planejamento, uma estruturação que vá além do começo-meio-fim.

Além do mais, cometi o erro de começar o livro pelo meio, e por isso, não fazia ideia de como juntar essas partes ao início. Para algumas pessoas creio que escrever partes soltas funciona, mas para mim foi caos. Sinto que minha falta de organização custou um tempo precioso, tanto que estou há um ano e meio nele, devido as longas pausas que fiz na escrita, por simplesmente não saber que caminho seguir.

Agora sim, estruturei o livro a minha maneira, encontrei ordem no caos e finalmente estou conseguindo bons progressos.

Bem, parabéns pelo blog, os textos tem sido estimulantes e esclarecedores.

Abraço! :-)

Helton Cenci disse...

Ótimo texto! Entendo isso como o esqueleto de uma construção (com suas vigas e lajes), depois se vai erguendo as paredes, colocando os encanamentos e fiações, suas conexões, verificando se está tudo bem emendado, se não faltou alguma ligação, depois se começa a rebocar, retocar, pintar, e por aí vai... tal qual escrever/construir uma boa narrativa...

Abraços e bom ano novo!

Noite em Claro disse...

Caro Alexandre

É bom encontrar textos dirigidos para a criação das obras, como os seus.

Acabei de descobrir o blog, e adorei!!

Também tenho um blog, e a história dele é.. engraçada, por assim dizer.

Escrevi um conto para uma coletânea no início de 2010, mas perdi o prazo de envio! (tá bom, foi burrice, eu sei).

Dái, fuçando na net, eu já li tanto conto de tanta gente que se ACHA escritor mas na verdade escreve tão mal..

Fiquei com medo de ser um desses caras, que pensa que sabe escrever quando na verdade só brinca de inventar.

Para saber se é isso ou não, montei o blog. Nele coloquei o conto que já falei e o estou publicando em partes (agora já finalizado).

www.ascronicasnoturnas.blogspot.com

Preciso muito da opinião das pessoas, então por favor, sigam o link, vão até lá, leiam, comentem, xingem, sei lá, mas dêem sua opinião sobre a minha literatura!!

Obrigado

www.ascronicasnoturnas.blogspot.com


Como disse um sábio amigo meu, "Você que é blogueiro sabe o quanto é bom receber um comentário justo. Seja consciente e receberá retorno"

www.ascronicasnoturnas.blogspot.com

SoweluS disse...

Dicas Incríveis
Terei de ler pelo menos mais umas três veze para me certificar de nunca esquecê-las.
Também escrevo, mas ainda tenho muito o que estudar e crescer.
Confesso que preciso explorar meus textos e construí-los de forma mais organizada.
Construir um texto coerente que siga uma linha útil de raciocinio e equilibrio, realmente não é facil.

Obrigada pelas dicas.

Alexandre Lobão disse...

Obrigado a todos pelos comentários! :)
Faço parte da Casa de Autores, um grupo de 22 autores que trabalham juntos, e acredito que esta troca de experiências, com cada um dando sua contribuição, completando com um pequeno comentário que seja, é essencial para aumentar a qualidade do que fazemos!
Forte Abraço e um Excelente 2011 a todos!
A propósito, sugiro que visitem "As Crônicas Noturnas" (vejam o comentário do Renato neste post), achei divertido e espero que ele não pare por aqui!