3 de maio de 2011

Como Criar Personagens Inesquecíveis


ecentemente, entraram em contato comigo pedindo que falasse mais sobre a criação de personagens.  Como criar personagens fortes e críveis, que fiquem na memória do leitor?
Já falei anteriormente sobre a criação de personagens (em "Dando vida aos seus personagens", "Criando Personagens Melhores", e outros posts), mas o assunto é tão vasto que dá para escrever um livro apenas sobre ele.
Vários livros, na verdade, como "45 Master Characters: Mythic Models for Creating Original Characters", de Victoria Lynn Schmidt, e "Como Criar Personagens Inesquecíveis", de Linda Seger.
Personagens podem ser definidos de várias formas, mas no fundo eles são apenas repositórios de características. Em outras palavras, o que realmente importa no contexto do livro são as características psicológicas dos personagens e como elas interagem umas com as outras; os nomes, características físicas e backgrounds dos personagens são meramente uma forma de expressar estas características para o leitor."Não é o que os seus personagens dizem, é o que eles realmente queriam dizer'" - Durant Imboden, escritor e editor
Estas características, também chamadas de "modelos míticos" ou "arquétipos", já foram listadas e catalogadas em diversos livros, e sugiro fortemente as leituras que se aprofundam neste assunto, pois elas "abrem os olhos" para detalhes que o autor não-profissional muitas vezes não se dá ao trabalho de observar.
Obviamente, estas "receitas de bolo" servem apenas como uma base para começarmos a organizar nossas idéias, como um fermento para nossa imaginação, e não como um "guia para criar personagens notáveis".
Uma vez que as características dos personagens e a forma como elas interagirão estão definidas, aí sim começamos a pensar nos personagens.  Por exemplo, decidimos que nossas características serão coragem, impetuosidade, sabedoria e alívio cômico, para os personagens principais.  Podemos decidir, então, criar um protagonista que seja corajoso e impetuoso, com um amigo que seja sábio mas que promova uma alívio cômico.  OU podemos pensar em um protagonista corajoso e sábio, apoiado por um amigo impetuoso e cômico.
Além destas características, digamos, "boas", é sempre importante colocar uma característica "ruim", pois personagens "perfeitos" não geram tanta empatia quanto personagens problemáticos. Timidez, traumas, pequenos vícios ou uma quedinha por fazer as coisas erradas dão um charme a mais ao personagem. 
Os escritores realmente bons - e aí está o grande segredo - conseguem mostrar as características dos personagens não no texto, mas no subtexto, em tudo que fica implícito nos diálogos entre os personagens, nas metáforas usadas pelo narrador e nas descrições das cenas. Principalmente nos diálogos. Quando retratamos um casal discutindo sobre algum detalhe irrelevante de sua vida, na verdade estamos deixando o leitor perceber, por exemplo, que o homem é maníaco por controle, que a mulher tem medo de enfrentar o marido mas tem algum segredo escondido, e etc.
E, para não deixarmos de falar das características físicas, basta dizer uma coisa: Da mesma forma que ninguém diz "sou corajoso", isso na verdade fica patente por suas ações (no subtexto...), não há necessidade de descrever fisicamente seus personagens, esta descrição vai nascendo aos poucos no texto, à medida que for necessário. Se a cor do cabelo ou da pele do personagem não afeta em nada a trama, para que ficar descrevendo, então? Lembre-se que descrições são SEMPRE mais pobres do que as informações que aparecem naturalmente no correr da história. É o velho "show, not tell", "mostre, e não conte" das oficinas de  escrita criativa.
Para fechar, vale destacar o que Linda Seguer coloca muito bem em seu livro, sobre os personagens e o subtexto: "Muitas vezes, os personagens não entendem a si mesmos. Eles frequentemente não são diretos e não dizem o que realmente querem dizer. Podemos dizer que o subtexto é o conjunto de todas as motivações e significados que não são aparentes para o personagem, mas que são aparentes para o leitor"

Agora, releia o texto acima e troque "personagens" por "seres humanos". 
É, somos mais parecidos com a ficção do que gostaríamos...

Gostou?  este post!

15 comentários:

Christiano disse...

Muito bom!
Parabéns pelo artigo!

Alexandre Lobão disse...

Obrigado pela força, Christiano! Apareça sempre!

Anônimo disse...

Lobão,

Bem interessante essa questão da definição do personagem, coisa que não me havia dado conta com a necessária atenção.
Mas lendo o seu artigo lembrei.me daquela comparação que você se referiu em nossa conversa presencial, quando me disse ter feito uma analogia entre a jornada do herói e a trama de um livro. Será que você não poderia resgatar o comparativo()... Acho que seria bem interessante.

abraço, e fica a sugestão

Arnaldo

Alexandre Lobão disse...

Oi Arnaldo,
A jornada do herói, como a estrutura "contemporânea" para a trama são apenas duas das possíveis formas de se estruturar um texto, quando o escritor quer primeiramente organizar seu trabalho, para não se perder no correr do processo de escrever o livro. Fiz a analogia pois para mim as duas são muito semelhantes, mesmo; anotei aqui sua sugestão e vou falar mais a respeito em um futuro post!

Cynthia Blink disse...

Obg Alexandre Lobão

O artigo me trouxe informações valiosas. Estou escrevendo um livro reportagem para meu trabalho final da faculdade.

Você está no facebook?

Cynthia Blink
estudante de jornalismo

Alexandre Lobão disse...

Oi Cynthia,
Obrigado pelo incentivo.
Você teoricamente me encontra em:
Twitter: @AlexandreLobao
Facebook: http://www.facebook.com/AlexandreLobao.Oficial
Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4727045E8

É mais fácil falar comigo via Twitter que no Facebook, pois estou com alguns milhares de amigos por lá. Qualquer coisa, também é possível fazer contato comigo através de meu site: www.AlexandreLobao.com

Unknown disse...

Alexandre estou conhecendo seu trabalho agora. gostei muito da matéria! quero um dia escrever tão bem quanto você.
Parabéns!
Gosto demais de literatura!








Alexandre Lobão disse...

Caro "Unknown",
Obrigado pelas gentis eexageradas palavras; e lembre-se que só nos aperfeiçoamos em qualquer ofício (inclusive a literatura)exercitando. Então, escreva sempre, e depois comente aqui sobre seus resultados!
[]s

Rogerio Amorim disse...

Olá senhor Alexandre Lobão
O nome no comentário identifica-me, estou a cerca de 8.000 quilómetros do Brasil e tenho dois livros publicados em Portugal. Feitas as apresentações, vou passar ao tema do comentário:
Em primeiro lugar, os meus parabéns. O aprendiz a escritor tem no seu blogue as ferramentas necessárias para se iniciar no mundo da escrita, o que não é fácil. Quem pretende ser um escritor depara-se com muitos obstáculos: Saber se de facto tem talento, se os seus textos condizem com a exigência literária, e por último, arranjar um editor que acredite nele. Porque, embora a obra apresentada possa estar a um nível muito bom, se o autor for desconhecido, torcem o nariz e, por vezes, nem sequer respondem a quem lhes enviou o original. Quem começa no mundo da escrita sente-se horrivelmente só. Olha em volta a pedir ajuda, mas chega à triste conclusão que se encontra dentro de um manto de nevoeiro, onde nem sequer existe um pequeno farol que o guie a bom porto. Depois, aparece o seu blogue, com a perícia de quem sabe, dá ânimo para que o autor tenha a esperança e continue a tentar. Muitos escritores que se tornaram famosos, e poderia citar tantos, passaram o mesmo que um autor desconhecido. É fundamental que a sorte bafeje o aprendiz a escritor, e que uma editora acredite e invista nesse autor.
Obrigado por me deixar escrever no seu espaço
Felicidades
Rogério Amorim

Anônimo disse...

Ótimo artigo,parabéns.
Déborah

Alexandre Lobão disse...

Oi Rogério e Déborah,
Obrigado pela força e pelos gentis comentários.
Eu comecei a escrever a uns 30 anos, mas meu primeiro livro só saiu, há 12 anos, por insistência de um escritor amigo, o Ronaldo Cagiano, que muito me incentivou e ensinou. Se hoje tenho esta ânsia de ajudar outros escritores, é culpa dele, e espero passar esta "corrente do bem" para vocês!
Forte Abraço!

reinodoibisco.blogspot.com.br disse...

Ótimas dicas! Bem interessante o texto.

Alexandre Lobão disse...

Valeu, Giovanne, fique à vontade para postar qualquer dúvida ou contribuição!
[]s

Riku Mitsuyoshi disse...

Olá Alexandre Lobão!
Eu estava fazendo algumas pesquisas de como conseguir descrever e transmitir características de uma cena de guerra e acabei encontrando esse post que na verdade não tem nada haver com o que estava procurando, mas achei interessante e decidi ler. Achei realmente bem útil.
Não sei se poderia pedir-lhe isso aqui, mas eu sou uma garota que ama escrever desde os meus 12 anos, agora estou com 15 e estou postando uma história de minha própria autoria em um site, eu realmente gostaria que você desse uma olhada e me falasse o que eu poderia melhorar. Se você pudesse daria uma olhada?
Eu estava realmente querendo deixar essa história que estou criando ficasse realmente boa para futuramente eu publicá-la como livro. Eu gostaria de aprender técnicas realmente muito boas para escrever realmente bem. Lá no site algumas pessoa elogiam minha escrita, mas eu gostaria de alguém que criticasse com sinceridade e precisão!!!
Muito obrigada, desde já!!
Adorei muito seu blog e estou vendo tudo o que eu encontro pela frente!!!

Alexandre Lobão disse...

Oi Riku,
Estive fora do ar e fora do país até o Carnaval, então acredito que minha demora em responder é desculpável! :)
Passe-me o endereço de seu blog que eu posso dar alguma dica, ok?
Aqui no blog, de repente o post sobre "Como gerar suspense" pode ser de seu interesse, confira: http://dicasdoalexandrelobao.blogspot.com.br/2011/12/como-gerar-suspense-ou-outras-emocoes.html
E obrigado pelo interesse e pela força!