23 de novembro de 2010

Primeiras coisas primeiro: por onde começar a escrever um romance?


m meu post anterior, falei que "começar a escrever pelo primeiro capítulo" era um erro.
Pois bem, se não começamos pelo primeiro capítulo, por onde devemos começar?
Antes de colocar qualquer coisa no papel, você deve definir bem sobre o que sua história será.  Afinal, uma história é um relato sobre alguma coisa que ocorreu. Sem mudança de contexto, sem conflito, sem algo que quebre a rotina, uma história não é uma história de verdade
Vejamos a famosa frase de John Le Carré: "O gato deitou no tapete" não é o começo de uma história, mas "o gato deitou no tapete do cachorro", sim.
Ora, o escritor precisa definir, antes de tudo, qual é o coração de sua história; o que os leitores responderão quando perguntados: "Sobre o que é este livro?".
No exemplo de Le Carré, a história não é sobre um gato, nem sobre um gato que deita em algum lugar, mas sobre o conflito de um gato com um cachorro.
"Se a premissa não for original, não for genial, não tem como a história ser profissional"
James McSill, Consultor literário internacional, assessor, cirurgião de texto (story doctor), palestrante e representante de autores
  Este "coração" é chamado tecnicamente de premissa.
A premissa, idealmente, é
a primeira coisa a ser escrita no livro, e é ela quem direcionará todo o seu esforço de criação.
Na prática, contudo, muitas vezes você começa definindo um rascunho da premissa, depois parte para a estrutura da história para validar se a premissa se sustenta, e a seguir retorna à premissa, escrevendo sua versão final, para então partir para a versão final da estrutura da história - em um próximo post falamos sobre a estrutura!
Uma boa premissa precisa instigar o leitor (portanto, nada melhor do que ser expressa em uma pergunta), e precisa ser simples e clara. Nela não vamos (necessariamente) dar características dos personagens, a menos que isso seja essencial para a história. O ideal é que a premissa estabeleça qual a situação central da trama, quem é o personagem principal, quem ou o que é seu principal antagonista, e as metas do personagem e do antagonista. 
Anote estes pontos, se você conseguir definir uma boa premissa, boa parte de seu trabalho como escritor já está feito - pode parecer até exagero, mas quanto mais experiência eu adquiro, mais eu acredito nisso!
Vejamos, apenas como exemplo, a premissa de meu proximo livro, que tem como título de trabalho "As incríveis memórias de Samael Duncan":  "Samael Duncan, senhor de 130 anos de idade, decide registrar suas memórias e descobre terríveis segredos sobre seu passado.  Ao sentir a proximidade da morte, ele se questiona: Terá baseado toda sua vida em uma mentira? E mais: haverá tempo de descobrir a verdade?"  (atualização: Publicado em agosto de 2016 pela Bagaço editora)
Outra premissa, com os pontos que mencionei mais "explícitos", poderia ser: "Órfão, vivendo em um armário embaixo da escada e desprezado pela família adotiva, o garoto Harry Potter, ao descobrir que seus pais eram bruxos, vai a uma escola de bruxos em busca de descobrir os segredos de seu passado . Conseguirá Voldemort matá-lo, como fez com seus pais, antes que Harry se torne um bruxo adulto, com pleno controle de seus poderes?"  
Vejam que a premissa não é a história, nem a sinopse da história, nem um resumo dela; ela é um guia, uma pergunta que será respondida no correr da obra.
E é esta pergunta direciona todos os esforços do escritor, que continuam, logo a seguir, com a criação da estrutura das tramas do livro.
Como veremos no próximo post.
Gostou?  este post!

19 comentários:

Fernanda Gonçalves disse...

Ainda não tinha pensado as coisas assim, de uma maneira tão objetiva. Sempre me incomodou o fato de eu não saber explicar direito sobre o que era a primeira história que me ocorreu. Agora, lendo o seu post, consegui entender onde estava o erro.

Obrigada por compartilhar a dica.
Abraços

Luciana Marques disse...

Como sempre pontual e específico... ADOOORO!

Bjus
Luciana

Denis disse...

Alexandre, estava relendo o post e surgiu uma dúvida: a premissa seria a mesma coisa que storyline ou há diferença?

Abraço!

Alexandre Lobão disse...

Oi Denis!
A premissa *não* é a storyline, ela é, digamos, um passo anterior.
Nos Estados Unidos é muito comum a realização de "Pitch Sessions" (procure no Google para saber mais) com editores e produtores cinematográficos. Nestas sessões você tem normalmente de um a três minutos para "vender sua ideia", com sorte um pouco mais de tempo se o evento for pequeno.
Pois a premissa é isso: como você apresenta seu livro para um potencial editor em 1 minuto.
Por incrível que pareça, a premissa dirige todo o processo criativo, pois ela é que diz qual a pergunta a ser respondida, quem (e como) está à procura da resposta e quem (e como) tenta impedi-lo.
Espero ter sido pelo menos marginalmente claro... :)
[]s

Denis disse...

Ah sim, Alexandre, deu pra ter uma ideia clara da diferença entre as duas coisas.

A premissa seria então no caso algo que desperte o interesse do leitor/editor, deve ser algo mais... chamativo, e que defina a história de uma forma simples e interessante, já a storyline seria apenas uma descrição curta e genérica da história.


Muito obrigado por responder! :)

Abraço!

Lance disse...

Olá,

A premissa é o argumento que da origem ao texto em si, é isso?? Eu chamo de argumento. E chamo de Storyline o seguinte: divido as etapas da história em sub-trechos, e faço parágrafos descritivos de cada sub-trecho desses, de até 3 linhas cada, pra me orientar.

Muito legais suas dicas. Você é bem objetivo e claro. :-)

Marcos pokémon disse...

Olá,eu tenho 16 anos e estou desenvolvendo uma história a um ano,aproximadamente.Nela conheci um pouco mais sobre mim e,inspirado no futuro de Harry Potter,decidi sonhar um pouco ao futuro que meu livro teria.Suas postagens me ajudam muito,e espero um dia poder lhe contar um pouco sobre este meu livro e o personagem principal que quero expor ao mundo.Obrigado!

Alexandre Lobão disse...

Beleza, Marcos.
Em meu último workshop tínhamos um aluno de 13 anos, e eu mesmo comecei a escrever contos aos 12 - embora meu primeiro romance tenha demorado um pouco mais, talvez porque eu demorei um pouco a acreditar que eu fosse realmente escritor! ;)
Quando tiver algo mais pronto, entre em contato!
[]s

Mark disse...

Pode deixar!

Eu já tenho a história pronta na minha mente,além de já ter desenvolvido meus personagens.Contudo,tenho dificuldades em colocar um ponto de vista diferente para cada personagem e também não sei se eles estão aptos como personagens de um livro.
Mas com as dicas do seu blog consegui ultrapassar obstáculos piores!

Quando estiver com total segurança para começar a concretizar os capítulos,e espero fazer isso em breve,eu poderia lhe enviar as primeiras páginas para você?

Alexandre Lobão disse...

Beleza, Mark.
Quanto estiver pronto para trazer seu trabalho à luz, meu e-mail é contato@AlexandreLobao.com.

[]s!

luciano tamme disse...

Ok Este é rumo obrigado!!

Alexandre Lobão disse...

Valeu, Luciano.
[]s!

Anônimo disse...

Ola Alexandre! Meu nome é João Vitor gostaria que me esclarecesse uma duvida:
a premissa atrairia leitores do mesmo geito se fossem deixadas lacunas ao inves de perguntas?
E parabens pelos seus posts ajudam muito (desculpe qualquer erro de portugues)

Alexandre Lobão disse...

Oi João Vitor,

A premissa é escrita para o escritor, TEORICAMENTE ninguém vai vê-la, então não deixe lacunas. A ideia dela é ajudar você a organizar as ideias, ou melhor, estruturar sua ideia melhor antes de começar a escrever seu livro.
É claro que, a partir da premissa, você pode criar perguntas instigantes para os leitores; aí sim as lacunas são bem-vindas. As "chamadas" para o livro devem sempre despertar curiosidade, nunca entregar o outro ao bandido, ou, no caso, o final ao leitor! :)
[]s e obrigado pelo interesse!

Beatriz Viana disse...

Olá, Alexandre! Estou com cinco ideias em mãos, estava me atrapalhando muito na organização da primeira, mas seguindo suas orientações, estou conseguindo proceder com minha estrutura e com os rascunhos das primeiras cenas. Estou ansiosa para o primeiro tratamento, as observações anotadas pelas folhas de meus cadernos já estão criando vida própria! Hehehe.

Muito obrigada pelas dicas, seus artigos são de uso indispensável aos escritores e dão uma enorme força para o proceder do trabalho! Abraços :)

Alexandre Lobão disse...

Oi Beatriz,

Que bom que as dicas estão sendo úteis!
Ficando travada com alguma coisa, ou precisando de apoio sobre qualquer assunto, basta falar.
[]s!

Alexandre Lobão disse...

Oi Beatriz,

Que bom que as dicas estão sendo úteis!
Ficando travada com alguma coisa, ou precisando de apoio sobre qualquer assunto, basta falar.
[]s!

Danny Carey disse...

Obrigada Alexandre por me ajudar com a organização do meu livro. Eu tinha a história em mente, comecei a escrever, mas sempre me perdia. Agora vou organizar melhor para não perder o foco e não deixar pontas soltas. Estou acompanhando os posts. Obrigada.
quatroestacoes.blog.br

Alexandre Lobão disse...

Beleza, Danny.
Em breve devo ter uma nova edição do "Workshop de Escrita de Ficção", uma imersão de dois dias que vai a fundo nesta questão de como se organizar para escrever um livro.
[]s! :)