29 de março de 2010

Sobre “metodologias” de escrita de romances

Seguindo a sugestão do colega “Escriba Encapuzado”, preparei este post sobre metodologia de escrita. Muito do que eu pensei em escrever para este artigo já foi dito por ele, em http://escribaencapuzado.wordpress.com/2010/03/13/metodologia-510/#more-506 – confiram! Antes de mais nada, vale dizer que cada escritor tem seu método próprio – que não necessariamente farão sentido para você! Para ficar em apenas um exemplo esdrúxulo: Isaac Asimov, o mais prolífico escritor de Ficção Científica, só conseguia escrever quando era continuamente interrompido – tanto que em certa entrevista ele relatou que, ao se casar pela segunda vez, sua nova esposa fazia tanto silêncio na casa que ele não conseguia se concentrar, e teve que pedir para ela vir ao seu escritório de vez em quando “para perturbá-lo”. Obviamente há uma história que motivou este hábito, que posso contar em outra oportunidade. Após ler diversos livros e conversar com vários escritores, hoje acredito que podemos dividir os métodos de trabalho entre dois extremos, com inúmeras graduações entre eles. De um lado, temos o método chamado de “pegadas na neve” ou “pegadas na areia”, ensinado por muitas oficinas de escrita criativa, especialmente as criadas a partir dos cursos de graduação em produção literária dos Estados Unidos, que seguem este método. Basicamente, neste método o autor define os personagens e suas motivações, estabelece um rumo inicial para a história, e “sai escrevendo”. Escreve, escreve, escreve, e quando percebe que algo não se encaixa, e não consegue achar uma boa solução para evoluir a trama, ele volta atrás (seguindo a trilha que deixou, suas “pegadas”) até o ponto onde a história tomou o rumo atual e, jogando tudo dali para fora no lixo, começa a escrever em uma nova direção. Um dos exemplos mais famosos de uso desta técnica é o de Fernando Sabino, que escreveu 1300 páginas para “O Encontro Marcado”, e aproveitou somente 320. E não se enganem: esta forma de escrita, apesar de parecer pouco produtiva, gera excelentes histórias! No outro extremo, temos uma abordagem que podemos chamar de “estruturalismo” ou abordagem “top-down” (de cima para baixo), seguindo o uso comum deste termo no gerenciamento de projetos. O autor começa com uma idéia, depois a detalha, descrevendo pontos principais de uma trama, depois as cenas ou capítulos que ligam estes pontos, para finalmente, com a estrutura definida, começar a escrever o livro. Neste caso, a organização do livro pode seguir ou não uma das diversas estruturas sugeridas para isso, como por exemplo a estrutura da “Jornada do Herói” descrita no livro “O Herói de Mil Faces” (de Joseph Campbell), ou a estrutura de roteiros de cinema (que funciona bem para livros) do “Manual de Roteiro” (de Syd Field). A vantagem desta abordagem é que diminui a ocorrência de “bloqueios”, pois o autor já sabe a priori para onde a trama irá evoluir – embora muitas vezes ela passe por outros pontos, conforme a história vai evoluindo. Minha experiência pessoal: Organizar as idéias antes de escrever, para ter uma boa noção da estrutura da história, ajuda muito. Escrevi “O Nome da Águia” (http://www.onomedaaguia.com/) seguindo uma abordagem estruturalista bem detalhada e o resultado, modéstia à parte, ficou muito bom. Já em “As Incríveis Memórias de Samael Duncan” (título provisório), que estou escrevendo agora, eu segui uma abordagem totalmente ao estilo das “pegadas na neve”; o resultado foi tão bom quanto o anterior, ou até um pouco melhor, mas ao chegar mais ou menos ao meio da obra precisei parar e planejar os próximos passos, porque fiquei “bloqueado”. A dica mais importante continua sendo, sempre: escreva! Só se aprende a escrever escrevendo.

6 comentários:

ilona disse...

uma dica realmente interessante. A prática continua sendo o melhor caminho certo?

Rodrigo Andolfato disse...

Alexandre. Eu estou seguindo o estilo pegadas de neve. tenho aprendido com este blog a enorme vantagem que existe em escrever e depois enxugar a história. Tenho me impressionado em como os textos ficam melhores de ler quando eu tiro toda a gordura deles.

Alexandre Lobão disse...

Oi Rodrigo!

Stephen King segue a regra de cortar 10% de tudo o que escreve, para se forçar somente deixar realmente o essencial, o vívido e dinâmico. Inclusive, a regra pode se aplicar diversas vezes: se o texto tem 100 páginas, corte até que esteja nas 90. Depois, tente cortar mais 10%, até que seja impossível. É incrível quanta coisa inútil a gente escreve, e só percebe quando passa por um crivo mais cuidadoso!

Eu confesso que tenho dificuldades com este método! :) Normalmente "escrevo na cabeça" diversas vezes, e quando finalmente coloco no papel/micro, é porque já está razoavelmente "cortado". Aliás, este é meu maior 'segredo' de produtividade: saber escrever e reescrever só de memória, assim consigo escrever em todos momentos, mesmo estando longe do computador.

Ah, Obrigado por apontar o engano no post, já corrigi!

Alexandre Lobão disse...

Oi Ilona!
A prática com certeza é o melhor caminho. De nada adianta ler mil livros de teoria literária, fazer mil contatos fortes na indústria livreira, dar palestras sobre o assunto, fazer oficinas e etc, se a pessoa não escreve.
Tudo isso ajuda, mas sem praticar sempre que possível a escrita, a pessoa nunca chega a ser um (bom) escritor.
[]s!

Parreira disse...

Oi, Lobão!


Muito bom este seu post sobre romances. Evitei o gênero por mais de 20 anos, mas após ter concluído o primeiro, peguei gosto pela coisa e já estou escrevendo outro.
No entanto, eu não tenho método definido, ou melhor, escrevo as coisas do meu jeito, sem que isso possa ser chamado de técnica. Vou escrevendo, simplesmente, marcando o que acho que deve ser eelaborado mais tarde, e deixo a coisa toda fluir. Me sinto uma espécie de 'leitor' daquilo que estou escrevendo: quero saber o que vem depois, o que vai acontecer. Sei mais ou menos o que vai acontecer, claro, mas conto também com os impasses. Os problemas propostos pelo texto são estimulantes.

Grande abraço!

Giovani Pasini disse...

Parabéns pelo blog,
gostei dos textos.
As dicas são boas..
Tenho uma página que trata sobre educação e comunicação, também um pouco de filosofia...

se quiser visitar:
http://giovanipasini-educacao.blogspot.com/

Até mais!