14 de setembro de 2012

Dúvidas de Escritores: Mais respostas para dúvidas comuns

Q
uanto mais eu rezo, mas me aparecem fantasmas.

A frase, que acho engraçadíssima, veio-me à mente logo depois de publicar o segundo post da série de respostas para dúvidas comuns de escritores. Tudo começou quando, buscando facilitar a vida de diversos colegas que me escrevem, resolvi reunir diversas questões comuns em um post (este aqui). Além da resposta positiva, com um grande número de acessos, fui premiado com diversas outras perguntas que me levaram a criar um segundo post para a série; e as dúvidas registradas nos comentários deste segundo post levaram-me ao terceiro, este que vocês leem agora.  Sou só eu, ou vocês também estão percebendo um certo padrão?

Bem, neste post iremos responder às questões colocadas pelos colegas escritores Lucas LucianoDiogo e uma questão da Natalia, colocada já há algum tempo no post sobre cliffhangers e jumpcuts, e que até agora tinha ficado sem resposta.

Vamos, então, às questões.  E que venham mais perguntas! :)
Questão: É antiético mandar um original para mais de uma editora ao mesmo tempo? O mais certo é mandar de uma a uma, caso a anterior não aceite?
Resposta: Quando comecei a escrever, eu acreditava que realmente deveria enviar meus originais para uma editora de cada vez.  Além de ser o que parece fazer sentido, algumas editoras sugerem que você faça isso. No entanto, considerando que as editoras demoram meses para responder, e que muitas nem se dão ao trabalho de dar uma resposta quando recusam o original, hoje acredito que não há problema algum em enviar seu livro simultaneamente às editoras que, segundo sua pesquisa preliminar, podem se interessar em publicá-lo. Estatisticamente falando, é praticamente impossível que duas editoras resolvam aceitar seu livro exatamente na mesma data; então basta ter o cuidado de, recebendo uma resposta positiva, ligar para as demais editoras, agradecer e indicar que não deseja mais que avaliem seu original. Sem stress.
Um homem deve ser julgado mais pelas suas perguntas que pelas suas respostas"
Voltaire, escritor, ensaísta e iluminista francês
Questão: Qual é o momento certo para conversar com uma editora? Quando tiver o livro completamente pronto?

Resposta: Sim, o ideal é ter o livro pronto antes de procurar uma editora, até porque, caso eles se interessem, não irão desejar esperar meses para conhecer a obra com mais detalhes. Obviamente, há exceções, e de pronto consigo lembrar de pelo menos duas: Primeiro, no caso de livros técnicos, você pode escrever apenas um capítulo ou dois, para mostrar seu estilo de escrita, e um resumo do que a obra pretende mostrar, o que cada capítulo vai cobrir e o tempo para a conclusão do livro. Foi justamente isso que fiz quando consegui uma editora para meu primeiro livro publicado nos Estados Unidos, um livro sobre programação de jogos em computador.  A segunda exceção é quando você pretende produzir uma obra direcionada aos interesses da editora. Neste caso,  a ideia é aproveitar uma conversa inicial para apresentar algumas ideias (a premissa e a sinopse de alguns possíveis livros) para que o editor sugira o que ele acha mais interessante, de acordo com sua visão de mercado. Foi o que fiz há poucos meses: levei à minha editora e a um amigo que trabalha em uma agência literária algumas ideias sobre o próximo livro a produzir, e conforme suas sugestões optei por produzir um romance de ação baseado na Divina Comédia (ops... este era o meu "projeto secreto"! Tarde demais, agora já falei...).

Nome da Águia - Primeira Capa (criada pelo autor)
Questão:  Além de escrever eu também desenho... Será que eles aceitam que eu faça as ilustrações e a capa? Ou ao menos participe da criação das mesmas? Ouvi dizer que a criação da capa e das ilustrações é algo fora do alcance do autor, que ele apenas analisa algumas opções de capa, e escolhe a que prefere... E tudo mais, mas eu gostaria de ao menos participar dando palpites na criação da capa e etc... Será que isso é possível?



Nome da Águia - segunda capa (capista profissional)
Resposta: Normalmente as editoras não envolvem o autor na criação das capas, até porque o editor e o capista são os profissionais mais capacitados para produzir algo que terá melhor aceitação no mercado; mas como tudo neste mercado, isso pode variar grandemente de editora para editora, e dentro da mesma editora este detalhe vai depender muito da ação de cada autor.  Por exemplo, para meu livro O Nome da Águia (aproveitem para assistir o trailer no site), eu criei uma capa que achei bastante interessante, com alguns elementos que julgava importantes: uma textura de tecido vermelho ao fundo, algo que se sobrepusesse à imagem, para dar a ilusão de volume (um cinto, no caso), uma águia americana e uma nazista, e algumas fotos dos Pergaminhos do Mar Morto.  O resultado, que gostei bastante, foi esse ao lado esquerdo.

Nome da Águia - Capa final (criada pela editora)

Depois, antes mesmo de chegar à editora, contratei um capista profissional e ele, usando alguns destes elementos, produziu uma capa bem melhor. Meu objetivo à época era levar um livro "pronto" para a editora, para dar-lhes uma noção mais palpável de como eu via a obra. O resultado foi este à direita do parágrafo anterior.

Por fim, enviei o livro a três editoras, tentei agendar uma reunião com cada uma delas, mas apenas uma me recebeu - a Novo Século, que decidiu publicar o livro. Por fim, a editora utilizou um de seus capistas para produzir uma nova capa, levando em consideração as duas anteriores, e o resultado final - muito elogiado - é este visto ao lado esquerdo.

Então, resumindo a história: se você acha importante e deixa claro isso para a editora, provavelmente vão deixá-lo participar mais ativamente do processo de criação, embora obviamente a palavra do editor e do capista devam sempre ter um peso maior.

Questão: Estou para terminar meu primeiro livro, é melhor registrá-lo em meu nome antes de enviar a qualquer editora?
Resposta: Na boa? Não conheço nenhum caso de alguém roubar um original e publicar em seu nome, e muito menos se o autor em questão não é alguém muito conhecido - até porque, mesmo no caso de autores famosos, o livro vende muito para leitores daquele autor, e publicar a obra sob outro nome não seria nenhuma garantia de sucesso.  Além disso, se você tiver como provar que o livro é seu, a lei de direitos autorais brasileira garante que você irá receber seus royalties sem problema, além da parte de indenização por danos morais. Por fim, vale lembrar que digamos que você teve uma ideia excepcional e única (vampiros x robôs, "A Metamorfose" de Kafka contada pelo ponto de vista das baratas, ou sei lá o que...) e o editor ADORA sua ideia mas não gosta de seu livro, nada impede que ele contrate um outro escritor para escrever um livro baseado em suas ideias - o que você registra é a obra, não as ideias.  E sim, concordo, isso não é bom.
Dito isso, fica a recomendação: registre sim seu livro antes de enviar a qualquer editora. Custa apenas 20 reais (em setembro de 2012), é fácil de fazer, e tanto deixa você mais tranquilo quanto mostra à editora que você é um profissional que sabe o que faz. 
Anacrônico? Pode ser. Mas é aí que reside a beleza da literatura, tão bem imitada pela vida! ;)

Questão: Existe alguma técnica ou regra para usar flashbacks corretamente, para não deixar o leitor confuso?
Resposta: A regra básica, tanto para uso de flashbacks quanto para qualquer outra técnica que você use para melhorar ou incrementar seu texto, é apenas essa que você já falou: não deixar o leitor confuso. Se em qualquer momento do texto o leitor não souber se está lendo um flashback ou o tempo presente da estória, então algo está errado. Normalmente o autor que seja um leitor constante tem este discernimento, mas o ideal é pedir para uma pessoa qualquer ler um destes trechos para confirmar; ou mesmo contratar um leitor crítico.  Para ser um pouco mais objetivo, seguem algumas dicas rápidas sobre o uso de flashbacks:
  • O texto deve dar uma pista "visual" sobre quando inicia e quando termina o flashback, usualmente uma linha em branco, alguma marcação (por exemplo,  *     *     *) ou mesmo colocar o flashback em um parágrafo à parte.
  • Evite o "excesso de destaque": alguns autores iniciantes colocam o texto de seus flashbacks totalmente em itálico ou negrito, deixando o texto praticamente ilegível. Mesmo destaques como uma tabulação diferenciada ou a utilização de um tipo de fonte diferente devem ser usados apenas se houver cenas curtas de flashback ou em casos muito específicos.  Idealmente evite estes artifícios: o texto deve ser claro o suficiente para prescindir deles.
  • Use um gancho para deixar claro para o leitor que será iniciado um flashback. Por exemplo, a cena anterior pode terminar com o personagem vendo, ouvindo ou sentindo algo que lhe lembre de seu passado; algo como: "Mesmo dentro do armário, o detetive pôde sentir o perfume da mulher assim que ela entrou no quarto. Era um perfume barato, o mesmo que sua mãe usava naquele dia fatídico em que decidira tornar-se um investigador particular. * * *  Ele lembrava que naquela manhã sua mãe parecia particularmente radiante, ..."
  • Use também um gancho para sair do flashback, e se você quiser fazer isso de um jeito profissional, utilize um gancho similar ao da entrada - por exemplo, se o flashback começou com algo que foi visto, termine com algo que foi visto pelo protagonista daquela cena. Pegando o exemplo anterior, o fim da cena poderia ser algo como: "O corpo de sua mãe parecia leve em seus braços, em contraste com o peso que sentia em seu coração, enquanto o cheiro de sangue fresco se misturava ao cheiro de óleo e sujeira daquele beco. * * *   Dentro do armário, o detetive enfiou o nariz na gola da camisa, tentando evitar engasgar-se com o cheiro pesado de fumaça que vinha da janela recém-aberta pela mulher..."
  • Lembre-se que a estória que você está contando não é a da vida dos personagens, mas sim uma situação específica que eles enfrentam. O leitor não precisa - e não quer - saber dos maravilhosos detalhes da infância do protagonista ou do vilão, a menos que estes detalhes realmente agreguem valor à trama, seja trazendo informações úteis para o entendimento da ação no tempo presente, seja mostrando lados da psiquê dos personagens que realmente precisam ser explorados para que se entendam suas motivações.
  • Por fim, evite excessos. Flashbacks devem ser usados com discrição, em doses homeopáticas, e (salvo raras exceções) uma história que tenha muitos flashbacks acaba confundindo o leitor, ou pior - fazendo com que ele perca o interesse. Isso acontece pois os flashbacks são usualmente momentos de reflexão, e acabam diminuindo o ritmo da história.

Bom, novamente acabei falando demais, mas acredito que as informações tenham sido úteis. Na sequência, irei publicar mais algumas participações na série "7 coisas que aprendi" e alguns posts excelentes trazidos de blogs de agentes literários americanos, com quem tenho mantido contato.  Fiquem de olho!

Gostou?  este post!

15 comentários:

fun disse...

Muito legal...
Sobre os flashback's, eu concordo. Recentemente li o livro "a batalha do apocalipse", ele é muito bom, com exceção das longas cenas de flashback (algumas duram até cem paginas)

Uma dúvida rapida... Onde eu posso registrar o livro? É em algum site?

fabricioliver disse...

Dicas valiosíssimas Lobão!!! Obrigado por colaborar tanto com os jovens escritores!
Aos leitores devo recomendar o serviço de leitura crítica. Enviei o original do meu primeiro livro para o Lobão e fiquei muito surpreso com o resultado. Trabalho necessário para continuidade de qualquer obra.
Obrigado Lobão!

Alexandre Lobão disse...

Oi Fun,
O problema dos flashbacks muito longos é que o leitor acaba perdendo o fio da meada da história principal, como você viu neste caso.
Quando ao registro, você consegue todas as informações de como fazê-lo no site da Biblioteca Nacional, http://www.bn.br, no link "Escritório de Direitos Autorais" do menu "Serviços a profissionais".
[]s!

Alexandre Lobão disse...

Valeu, Fabrício!

QQ coisa estamos à disposição.

Forte Abraço!

Manoel Amaral disse...

Lobão,
Já registrei três livros impressos,
agora quanto aos e-book? O procedimento é o mesmo para o registro?

Abraços
Manoel
osvandir.blogspot.com.br

Marli Terezinha Andrucho Boldori disse...

Alexandre,vim garimpando coisas boas e acabei por encontrar seu magnífico espaço.Achei extremamente interessante seus conselhos e dicas,pois ainda tenho a vontade de escrever um livro, até já iniciei muitas vezes,mas sinto que ainda não sei como fazê-lo.Obrigada pelas postagens que me deixaram mais informadas sobre o assunto.Um grande abraço!

Su M. disse...

Posts sempre muito úteis.
Tenho um grande problema: Tenho uma idéia para uma estória, já penso nos personagens principais e várias possibilidades de acontecimentos no decorrer da mesma. Ok até aí. Começo a escrever 'loucamente', até chegar em uma média de 13 páginas, deixo o arquivo jogado na pasta nomeada "Caos" do meu computador e perco a esperança de que aquelas poucas - muitas para mim - páginas se tornarem um livro. Já fiz isto umas 4 vezes.
Sinto como se nada que escrevo fosse bom/legível o suficiente para continuar a escrever e criar um livro.

É frustrante.

Enfim, sempre bom ler suas dicas, Alexandre.

Abraços,
Suelen de Miranda | Lágrimas Aleatórias

Sissi disse...

Adorei Alexandre, parabéns.
Ainda estou a procura de um curso sobre técnicas de escrita, mas em paralelo continuo sempre de olho em suas dicas aqui. Muito boa essa do flashback.
Também tenho dúvidas em como funcionaria o registro de E-book. Já li alguns artigos onde a dica é para nos acostumarmos com essa tecnologia. Esse é o futuro certo? Ou você acredita que ainda haverá espaço para o livro físico?
Obrigada

Alexandre Lobão disse...

Oi Manoel,

O processo de registro é o mesmo, até porque você nem precisa do livro impresso por uma editora para fazer o registro, você pode registrar o original impresso em casa, sem ISBN nem nada; e depois decidir qual o "destino" dele.
[]s!

Alexandre Lobão disse...

Oi Marli,
Obrigado pelo comentário e palavras de incentivo.
Quanto a escrever um livro, não desista, é mais fácil que parece!
Falando nisso, estão abertas as inscrições para o III Workshop de Escrita de Ficção apresentado por mim e pelo escritor Oswaldo Pullen, onde damos justamente um passo-a-passo produção de um romance, com dicas desde a ideia inicial até os tratamentos finais que melhoram a qualidade do livro.
Caso se interesse, veja detalhes em http://escritacriativa.net/2wef/ - Ainda não está 100% atualizado, mas a página de inscrições já está funcionando.
[]s

Alexandre Lobão disse...

Oi Suelen,
Pois é, isto está entre as coisas que aprendi: Escrever dá prazer, mas também dá trabalho. Não basta inspiração, é necessário persistência; eu mesmo preciso "me obrigar" a escrever todo dia, tem dias que não estou inspirado e a preguiça e o excesso de compromissos falam forte... O mais difícil é estabelecer uma rotina, depois manter é mais fácil.
Agora, há diversas formas de se escrever um livro, e a pior (a meu ver...) é começar pela primeira página e sair escrevendo; o ideal é você se organizar para saber onde a história vai dar, isso ajuda em muito a motivação.
A este respeito, leia o comentário acima, na resposta que dei à Marli falo sobre o Workshop de Escrita de Ficção que estou organizando, e que também pode lhe ajudar.
[]s!

Alexandre Lobão disse...

Oi Sissi,
Quando a cursos de escrita, dê uma lida no comentário que fiz à Marli - estou organizando um aqui em Brasília, e sempre recebemos gente de fora.
O registro da BN não especifica a mídia - você registra um original, se depois ele vai virar um livro impresso ou um ebook, não interessa.
Quanto ao futuro do livro, com certeza cada vez mais precisaremos conviver com livros eletrônicos, eu mesmo já li toda a série da "Torre Negra" do Stephen King em um tablet, e achei muito mais confortável que carregar os grossos volumes da série.
TEORICAMENTE não faz diferença para o autor, escrever é igual para qualquer mídia; mas na prática pode ser que livros mais curtos, com parágrafos, cenas e capítulos mais curtos façam mais sucesso no futuro, até porque há muita gente lendo em smartphones, e ler um livro de 300 páginas em um smartphone é algo interminável, pois o número de páginas pode multiplicar por 10 dependendo do tamanho da tela...
Outro ponto a considerar é o custo: tanto os leitores quanto os e-livros estão cada vez mais baratos, e já deixaram de ser "artigo de luxo" nos EUA faz tempo. Se livros físicos vão continuar existindo? Sim, claro. Mas daqui a algum tempo pode ser que sejam que nem LPs: artigos de colecionadores e saudosistas.
No Brasil acho que este futuro vai demorar um pouquinho a chegar, pelo menos uns 5 ou até 10 anos. De qualquer forma, o futuro está chegando e rápido, e é bom o escritor pelo menos se manter informado, para não ser pego de surpresa...

Alexandre Lobão disse...

CORRIGINDO: O endereço do workshop é http://escritacriativa.net/3wef/

Lillian Cruz disse...

Gostei muito das dicas, estou terminando de escrever um livro e muitas das minhas dúvidas foram esclarecidas. Porém, ainda resta uma, e eu ficaria eternamente grata se você me respondesse, pois nunca achei uma informação válida sobre isso:
Preciso registrar meu livro na biblioteca nacional para ISBN antes de enviar o livro para uma editora, ou a própria editora pode fazer o registro?
Nunca entendi isto, pois sempre que compro um livro ele tem o número do ISBN. Então, fui procurar em alguns sites/blogs sobre isso, e li que a pessoa deve registrar na biblioteca nacional ANTES de enviar para uma editora, e em outros sites li que um livro só pode ser registrado depois de ser publicado.
Bom, eu gostaria de saber disso, é um assunto que realmente me deixa muito confusa...
De qualquer forma, adorei as informações que encontrei aqui, elas me ajudaram muito :)

Alexandre Lobão disse...

Oi Lilian,
Como a justiça, eu "fardo mas não talho"; demoro a responder mas sempre o faço!
Quanto à sua dúvida, idealmente você mesma deve fazer este registro, para garantir seu direito autoral. Na prática, algumas editoras até exigem que você tenha feito o registro, enquanto outras não se incomodam e fazem isso para você.
Agora, é importante destacar que o registro NÃO é o ISBN, o ISBN é o número dado pela Biblioteca Nacional (BN) para edição de um livro específico; ou seja, você registra seu livro na BN como "ideia", e a editora consegue com a BN um ISBN específico para registrar a concretização de sua ideia como uma edição de obra.
Obrigado pelo interesse, e um Forte Abraço!