11 de novembro de 2020

Por que escrever um livro? E como escrever uma biografia?

á muitos motivos para se escrever um livro, por isso vou começar este artigo com uma frase do maravilhoso escritor brasileiro Lêdo Ivo:


“Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar luta de classes, outros pra se perpetuar nos manuais de literatura ou conquistar posições ou honrarias. Os melhores são os que escrevem pelo prazer de escrever.” 


Por que escrever um livro?

Há aqueles que querem escrever um livro para se tornarem uma referência em sua área. 
Faz sentido: se você vai escolher, digamos, entre duas professoras da dança, e souber que uma delas tem um livro na área, provavelmente você será tentado a escolher a que escreveu o livro.

Há quem deseje escrever um livro para ganhar honrarias, conquistar posições, "se perpetuar nos manuais de literatura", como diz Lêdo Ivo. No fundo, escrevem para alimentar o ego. 
O que também é uma motivação válida, tanto que há psicólogos que sugerem a escrita de diários como forma de fortalecer a autoestima e clarear suas ideias e objetivos de vida.

Nenhuma motivação, a meu ver, vai bater aquela que vem do mais íntimo do seu ser: Escrever pelo prazer de escrever. Quando você escreve porque gosta, porque precisa disso para ser feliz, então suas palavras soam verdadeiras e vão direto ao coração do leitor.

No entanto, há outra motivação igualmente profunda, irmã desta, que é a vontade de escrever uma biografia de alguém que se admira.

Não são poucos os escritores em início de carreira que me procuram buscando dicas sobre como escrever uma biografia. Muitos querem contar sua própria história de vida, passar adiante as informações valiosas sobre como superaram a doença ou uma limitação física, a morte de um ente querido, ou uma vida inteira plena de dificuldades. Outros querem contar a história da mãe, a primeira caminhoneira do Brasil, o avô que foi recruta na Segunda Grande Guerra, a tia que criou do nada um movimento que transformou a vida de muitos necessitados.
 

Há ferramentas para se escrever biografias?

E então? Quando escrevi A Bíblia do Escritor, meu pensamento sempre foi voltado para a criação de livros e roteiros de audiovisual de ficção. Os mesmos conceitos se aplicam para biografias? Meditando sobre isso, encontrei esta frase do escritor e poeta britânico Michael Rosen:

“... é impossível escrever a história completa e verdadeira de qualquer coisa. Sempre deixamos algo de fora. Muitas vezes, colocamos coisas a mais. Algumas vezes, não interessa o quanto tentemos evitar isso, mudamos coisas. Contamos a história da nossa própria forma, que pode não ser da mesma maneira que outra pessoa contaria.” 


Se realmente contar uma história é questão tanto de conteúdo quanto de forma, cheguei à conclusão que muitas das ferramentas que explico no livro podem sim ser aplicadas à escrita de biografias, algumas integralmente, outras de forma adaptada.

Algumas ferramentas para escrever biografias

Vejamos algumas das ferramentas que podem lhe ajudar, de maneira bem objetiva, a escrever a biografia que você deseja:
  1. Definição da premissa: Todo livro de ficção começa com uma premissa, que entre outros elementos inclui o local, data, condição social etc. do personagem, e seu objetivo, o que ele busca atingir até o fim do livro. Da mesma forma, elabore isso para seu biografado, em especial o "objetivo de vida". Este objetivo vai direcionar toda a escrita da obra, pois deve transparecer nas ações do biografado e, eventualmente, aparecer em seus diálogos. Busque reforçar objetivos fortes, que conquistem o leitor. E lembre-se: mesmo que para o biografado estes objetivos não estivessem claros no início de sua vida, ficaram claros à medida em que ele foi vivendo, o importante não é ser 100% fiel a cada segundo da realidade (o que, já vimos, seria impossível de qualquer forma), mas contá-la de modo a empolgar o leitor.
  2. Definição dos personagens: Mesmo que o protagonista seja você mesmo ou alguém que você conheça profundamente, sempre há "personagens" de apoio, pessoas que participaram ativamente da vida do biografado. Crie um mapa mental para cada pessoa e um que retrate os relacionamentos entre todos, e conforme a necessidade de cada personagem, crie fichas com os dados pessoais, relacionamentos, características físicas ou psicológicas etc. porque isso servirá como referência importante no momento da escrita.
  3. Estruturação da trama: Ao escrever ficção, elaboramos os pontos de virada (PDV) de forma a criar um efeito de ritmo e tensão crescentes. Os PDV são aqueles momentos em que a vida obriga o personagem a mudar seu rumo - ou em que o personagem, por si só, decide que precisa mudar de vida. Ora, o mesmo conceito serve para as biografias: ao começar a se organizar para escrever, anote primeiramente os PDV da vida do biografado. Assim que estes momentos estiverem definidos, anote os momentos mais importantes, entre um PDV e outro, que você deseja contar. Na sequência, elabore os momentos de conexão ou outros momentos significativos. Seguindo esta estratégia, você vai terminar com uma lista de todos os momentos que você gostaria de contar em sua biografia, de forma cronológica, o que lhe permitirá ter uma visão completa da história e, com isso, se organizar melhor para escrevê-la. Além disso, esta abordagem evita que você se perca escrevendo milhares de detalhes sem importância que, de outra forma, poderiam tornar a narrativa maçante e gerar desmotivação porque você não vê a história evoluindo.
  4. Reorganização da trama: Uma vez definido o outline, esta lista com todos os pontos a serem contados, você deve revisar a trama e pensar qual a melhor forma de contar a história. Começar com o nascimento do biografado faz sentido? Ou é melhor começar por um momento super importante, como uma conquista excepcional ou a própria morte, e a partir daí retornar ao princípio? O que deve ser contado de forma sequencial, e o que pode aparecer como flashback (cenas do passado, contadas no presente) ou backstory (comentários do narrador ou diálogos onde o passado é parcialmente revelado)? Lembre-se que seu objetivo é tanto contar a história como manter o leitor interessado para que ele leia a história.
  5. Filtros de revisão: Os filtros de revisão são um bom exemplo de uma ferramenta que pode ser utilizada integralmente. Por exemplo:
    • Corte de informações: Ao revisar, corte tudo o que for "explicação" e que não colabore para aprofundar o biografado ou levar a história adiante.
    • Uso de flashbacks e outros similares: A ideia é usar o framing para reforçar a saída e entrada no flashback, sempre a partir de um elemento similar. Por exemplo, se um cheiro leva à memória que inicia um flashback, um cheiro traz as reflexões de volta ao presente.
    • Uso de Cliffhangers: Também nas biografias é importante deixar o leitor em suspense! Termine cada capítulo lançando algo que deixe o leitor curioso, seja começando a contar algo que se passou, seja deixando no ar que algo importante está para acontecer.
    • Uso dos sentidos: Vá além da descrição visual dos fatos, com um ou outro diálogo ou som importante: nos momentos mais tensos ou expressivos, em que o leitor precisa imergir mais na narrativa (à custa da diminuição do ritmo), reforce o paladar (mesmo que seja "um gosto de derrota na boca), o tato, o olfato e a intuição (o sexto sentido).
O assunto é amplo, mas espero ter dado pelo menos algumas ideias para quem deseja iniciar um empreendimento deste tipo - e é claro que fico à disposição para responder dúvidas específicas, como sempre!       

E você, tem alguma ideia ou dica para quem está pensando em escrever uma biografia? Compartilhe!



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