2 de agosto de 2012

7 coisas que aprendi, por Leonardo Barros

7 coisas que aprendi
Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. 

Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

Neste post, com a palavra, o escritor convidado Leonardo Barros.
Ao se decidir pela carreira literária, logo se percebe uma verdade: todo autor segue seu curso. Uns são mais técnicos, outros mais intuitivos. Talvez devido ao ato de escrever – principalmente de escrever ficção – ser uma manifestação do mundo íntimo do autor é que muitos se apegam aos seus escritos como se fossem à prova das críticas de leitores e literatos. Há quem diga: “escrevo para mim, não para os outros”. Mas quem o faz está errado!
Saber que se escreve para quem lê é, em meu ver, a primeira lição obrigatória que um escritor tem de aprender.
Escrevo romances desde 2008 (não faz tanto tempo assim) e desde a primeira publicação venho estudando e refletindo sobre o processo. E aprendi a...
  1. Sempre construir um resumo – O escritor e roteirista americano Syd Field, em seu livro O Manual do Roteiro, faz uma analogia interessante ao sugerir que, da mesma forma que um motorista se perde ao dar partida no carro sem saber para onde vai, um escritor ou roteirista dá voltas e chateia o leitor quando escreve sem saber um final. A criação de um resumo, com apresentação, viradas e desfecho, nada mais é que um desdobramento deste raciocínio mais que lógico. Outra vantagem de pontuar seu texto é que, se você for obrigado a abandonar seus escritos por alguns dias, o resumo o direcionará no caminho certo, facilitando o trabalho. Mas não deixe o resumo paralisar você: caso você imagine alterações que tornem a trama mais interessante, reescreve seu resumo, ou parte dele. Livros escritos com resumos são mais coesos e fáceis de ler. Além de mais fáceis de escrever.
  2. Desconfiar das críticas positivas de amigos e parentes – “Está ótimo”, “adorei” ou “nossa, não larguei até a última página” não são críticas. São manifestações de apreço pelo autor ou pela obra... Aí que está o problema: você nunca saberá se são sinceros! O melhor é agradecer e não deixar que os elogios o envaideçam. Mas caso você ouça críticas como “achei o texto adjetivado demais”, “não sei como acabou a história de ‘tal personagem’” ou “fiquei confuso quanto à intenção da mãe do protagonista”, talvez valha a pena ouvir um pouco mais seu crítico e refletir. Mas tenha cuidado: saiba diferenciar os bons críticos dos invejosos. O escritor é, e sempre será, alvo de muita inveja. No final, deve sempre imperar o bom senso.
  3. Não ter medo de experimentar – É certo que escolher um gênero ou assinar sequências são boas formas de se cativar leitores e se tornar conhecido no menor tempo possível. Veja bem: todo escritor é um leitor. E se pergunte: quem gosta de drama e de comédia tem de optar por um deles? Talvez não! Quem se reinventa nunca morre de tédio. E certamente se tornará mais interessante também para o leitor. Outra vantagem da experimentação é que, se o novo trabalho não gerar bons frutos, certamente o terá ensinado uma grande lição: o gênero não é uma doutrina, é um tempero! Tempere comédia com drama e suspense com amor.
  4. Saber que um bom revisor ortográfico é tão importante quanto uma boa história – tive a sorte de contar com a ajuda de um grande profissional que, além de tecnicamente preparado, tornou-se um admirador da minha obra desde o primeiro trabalho. Mas não é preciso que seu revisor se torne um fã, para que você aprenda a aproveitar ao máximo o seu trabalho. Aceite as correções e não se apegue a uma palavra ou frase específica que, se alterada, não mudará a história em nada. Vá além da revisão ortográfica: pergunte ao seu revisor se ele tem dúvidas sobre a trama, se ele entendeu os motivos que levaram seu protagonista a tomar as decisões que levaram ao desfecho. Pergunte-o se há algo que ele não gostou. Insista! Certamente haverá como melhorar.
  5. Evitar desculpas e rituais – Uma regra: quando pensar em escrever, escreva. Não espere uma inspiração mística, um sinal do além ou condições ideais de temperatura e pressão para se sentar e começar a escrever. Mas para quem tem família grande e ruidosa cabe mostrar a todos a importância do seu trabalho. Não fale da escrita como um hobby. Tranque-se no escritório ou no quarto, a qualquer hora, e mande ver!
  6. Ler como escritor e assistir a filmes como roteirista – Preste atenção aos detalhes da trama que parecem sem importância. É provável que o roteirista ou escritor os tenha colocado ali por algum motivo. Perceba quando os personagens contam a história através dos diálogos. E sempre se pergunte: há outras formas de se contar esta história?
  7. Saber o final antes da virada que antecipa o conflito – O que fazer se você decidiu terminar sua história de um jeito diferente do que descreveu no resumo? Não há problema. O ideal é fazê-lo antes do conflito. Em alguns casos, cabe fazer no meio do conflito (o que se chama de virada da virada). Os finais inusitados, ou “originais”, como se costuma dizer, são, muitas vezes, fruto de uma mudança de planos. Mas tenha cuidado: se a mudança ocorrer após a virada que antecipa o desfecho, talvez sua história pareça confusa ou pouco crível. E de uma forma ou de outra isto seria uma catástrofe.
Sobre o autor:
Leonardo Barros é médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor do romance erótico “Amor de Yoni” (publicado em 2008); do suspense policial “O Maníaco do Circo – e o menino que tinha medo de palhaços” (publicado na XIV Bienal do Livro Rio, em 2009); da comédia “Saúde, Beleza, Prosperidade e Riqueza” (publicação independente, 2010) e da comédia “Solteiro Em Trinta Dias - Receitas de sucesso de um ex-otário” (publicado em 2011).
Para contatar o autor deste livro envie um e-mail para leobarrosescritor@gmail.com, siga-o no Twitter: @LeoEscritor ou adicione-o no Facebook: facebook.com/leobarrosescritor.

Veja a opinião de outros autores no  Vida de Escritor e no Escriba Encapuzado.

* Projeto inspirado pela coluna “7 Things I’ve Learned So Far”, da revista Writer’s Digest.

Gostou?  este post!

8 comentários:

V. Fenelon disse...

São 7 dicas de ouro! Quem escreve sempre se depara com esses impasses e desafios... Parabéns pela postagem.

Abraços

davidson disse...

Lobão curto muito seu blog !!! sou um seguidor assíduo...por gentileza poderia deixar aqui o link do meu blog sobre literatura e variedades http://poesiasdocrepusculo.blogspot.com.br/2012_08_01_archive.html
ainda tá só no começo mais espero que fique tão bom quanto o seu!!! sucesso no seu livro...

Fernanda Coelho disse...

Senti a falta desse roteiro quando escrevi meu "livro". Coloco entre aspas, porque o pobrezinho ainda não passa de um amontoado de bytes. Enfim, acho que todo escritor passa pela fase da gaveta, não? E das fases em que se acha genial e lastimável (nessa mesma ordem. rsrsrs)
Acontece que história guardada é algo que nunca deixa de incomodar e esta semana eu tive aquele momento em que você pensa "Poxa vida! Se eu mexer na história dessa e dessa forma, acho que vai ficar legal."
Existe alguma boa forma de montar o roteiro? Não sei se sou eu e minha dificuldade em planejar, ou se é deifícil mesmo...
Adorei o post.
Útil como sempre.
Abraços
Fernanda Coelho.

Alexandre Lobão disse...

Caro Fenelon,
Agradeço pelas gentis palavras, em nome do Leonardo. E caso você se anime a escrever suas "7 coisas...", basta mandar sua contribuição para o email contato (arroba) alexandrelobao (ponto) com
[]s!

Alexandre Lobão disse...

Valeu, Davidson!
Gostei do "Ceu sem Lua" (é sem acento, mesmo?), acho que você está no caminho certo!

[]s!

Alexandre Lobão disse...

Oi Fernanda,
Sugiro começar o "roteiro" como um resumo: finja que o livro está pronto e faça um resumo entre 5 e 10 páginas, no máximo, como se contasse a história a alguém.
A seguir, pegue este resumo e o divida em pedaços, destacando principalmente os pontos marcantes, onde a história muda de rumo.
Esta "história em pedacinhos" já é seu roteiro. Há outras formas de fazê-lo, é claro, mas esta provavelmente é a mais, digamos, "natural".
[]s!

Anônimo disse...

Lobão... Sei que há vários processos de escrita, e que cada escritor tem suas manias, mas eu sinceramente não consigo ir despejando tudo de uma vez só. Eu gosto muito de escrever diálogos primeiro, claro, sempre coloco algumas informações enquanto faço isso, mas basicamente monto minha história primeiramente com diálogos. Estou errado?

Alexandre Lobão disse...

Oi "Anônimo",
Como você mesmo já disse, há vários processos, e a meu ver não há um que seja essencialmente melhor; mas sim aquele que é melhor para cada escritor.
Não conhecia ninguém que começasse pelos diálogos, obrigado pela informação, que com certeza usarei como exemplo em futuros posts e turmas do workshop. como eu disse, não há "certo" ou "errado", mas sim o que funciona para você.
Da minha parte, sigo uma mistura de técnicas, conforme o necessário. O bom de conhecer várias técnicas é que você pode testar e escolher a melhor para você com mais propriedade, e não simplesmente porque não sabia que havia outras formas de fazer a mesma coisa.
[]s