17 de março de 2011

Como organizar seu processo de escrita: premissa, estrutura, cenas, e, finalmente, começar a escrever...


á momentos em nossa vida que temos a certeza de que, dali para frente, tudo será diferente.  Quando saímos de um emprego, ou começamos em um; quando algum parente ou amigo querido morre ou nasce, quando lançamos um livro ou terminamos um. Basta dizer que tudo isso, ou quase, aconteceu comigo nas últimas semanas - o que torna quaisquer outras justificativas (por estar longe do blog) redundantes. Agradeço pelos que entraram em contato pedindo a continuidade deste espaço, e pelos que me ajudaram nos momentos de transição.
Retomando o fio da meada onde paramos, em nossa sequência de posts sobre, digamos, uma possível ordem lógica para se escrever um romance: 
Em "Primeiras coisas primeiro", vimos a importância da premissa para dar direcionamento ao livro. A premissa não só orienta o trabalho do escritor, mas é o que é vendido nas "pitch sessions" (Não sabe do que se trata?  veja algumas dicas aqui).
Em "Preparando a estrutura", falamos do passo seguinte, que é organizar a estrutura da obra. A necessidade desta estrutura foi reforçada no post seguinte, até porque muita gente parece não entender que a estrutura liberta, e não amarra.
No post "Pronto, já montei a estrutura do meu romance... e agora?", vimos como sair da estrutura, que é uma "visão em altíssimo nível" da obra, para algo mais perto do resultado final.  A ideia é o escritor ter, ao fim deste passo, uma lista das cenas do livro, uma após a outra, em ordem cronológica.  Lembro que as cenas são meras descrições do que vai acontecer em cada momento, e NÃO são o texto final do livro - servem apenas para o escritor se organizar!
Não há forma correta nem melhor para se escrever um romance. Se houvesse, não seria possível escrever um livro ("Dez regras para escrever ficção") só com as visões pessoais - e diferentes! - de vários autores sobre o assunto
Com a lista das cenas pronta, agora o trabalho do escritor é refinar estas descrições, definir a ordem e a organização das cenas, e começar finalmente a escrever a obra - o que chamamos de "primeiro tratamento", algo como uma "primeira versão", algo ligeiramente melhor que um rascunho.

O primeiro passo, nesta etapa, é revisar todo o trabalho até o momento, lendo as cenas uma a uma, em ordem, e descobrir se há algum ponto de falha; alguma ponta solta, algo que não parece se encaixar bem. Verifique se cada cena é essencial à trama, e se os personagens estão agindo de maneira coerente com o perfil que você definiu para cada um.  Gaste um bom tempo nisso, refinando as descrições, incluindo pequenas observações e lembretes para orientar a escrita do texto depois.  Só vá para o passo seguinte quanto tiver certeza de que todas as cenas estão "amarradas", e todas são essenciais à trama.
A organização inicial das cenas, de maneira cronológica, facilita entre outras coisas a descoberta de furos de continuidade.  No entanto, na maioria da vezes não é assim que você deseja contar a história para seu leitor. Quase toda história tem flashbacks, por exemplo; algumas iniciam com uma cena futura (um flashforward) para aumentar a expectativa do leitor, e muitas vezes diferentes tramas seguem suas próprias cronologias, apesar de entrelaçadas. Então, após a revisão é o momento de definirmos a ordem em que as cenas devem aparecem para o leitor, e escolher quantas e quais cenas estarão em cada capítulo. 
Não há uma regra bem definida sobre como as cenas devem se agrupar em capítulos; o mais usual é escolher cenas que tenham uma conclusão mais, digamos, "forte" para ser o final de cada capítulo. Sei que isso soa vago, mas com diversos cartões com curtas descrições de cenas na mão, já na ordem a ser apresentada ao leitor, o processo de organizá-las em capítulos acaba sendo razoavelmente intuitivo; o autor vai perceber onde devem aparecer as quebras, os momentos certos para deixar o leitor respirar antes de iniciar o próximo mergulho.
Organizadas as cenas e capítulos, é hora de começar a escrever "de verdade".  Ou quase.
Neste primeiro tratamento, você deve deixar de lado todas suas pretensões de "escrever bonito" e fazer um texto cru, simples, objetivo, que simplesmente conte a história. Se por acaso, por exemplo, uma figura de linguagem excepcional vier à mente, anote ao lado - mas não jogue ainda no texto!
Neste processo fica claro que o texto é algo vivo, quase com vontade própria: à medida que você vai escrevendo, as cenas, que pareciam definir tão bem o texto, vão se alterando, se ajustando, com pequenas (e por vezes grandes...) falhas sendo descobertas e corrigidas.
Por fim, você terá saído de uma lista (ou de uma pilha de pequenos cartões) de cenas e chegado a um texto completo, com algo entre 50% a 75% do tamanho de seu texto final.  Neste ponto, as tramas já estarão completamente definidas, descrevendo toda ação que leva os personagens (e o leitor) capítulo a capítulo da apresentação inicial até o clímax. 
O que falta?  A alma da história! Falta adicionar vida ao seu texto em geral, e aos personagens em particular.

   Cabe aqui um comentário: Não há forma correta nem melhor para se escrever um romance. O que sugiro aqui são melhores práticas, que podem (e devem) ser adaptadas conforme seu gosto, suas facilidades e suas experiências. Se houvesse uma forma correta para se escrever, o mercado livreiro não seria um negócio de risco.

Lembro que este primeiro tratamento ainda é para seus olhos somente, ou seja, ainda não é hora para mostrar o livro para ninguém - exceto, talvez, para algum confidente de quem você queira uma opinião sobre o rascunho inicial do trabalho. No próximo post, falaremos sobre os próximos tratamentos, com algumas ideias para incrementar seu texto.
Gostou?  este post!

6 comentários:

Mirian Fidelis Guimarães disse...

Formidável!!! Tentarei fazer desta forma, creio que ficará bem mais organizado rs... Já sou acostumada com as fichas, agora só irei organizá-las melhor... Obrigada pelas excelentes dicas.

Beronique disse...

Muito bom! Eu tinha bstante dificuldade em estruturar meus textos, principalmente por acabar, depois do ponta pé inicial, focando no que iria acontecer, e não no que estava escrevendo, perdendo assim o fio da meada. Demorou um tempo até eu perceber que pecado era escrever ao leo do vento e não estrutura-lo, de modo a ter um esquema sequencial do que iria escrever (tenho certa dificuldade com finalizações, de modo que ficava a me prolongar, as vezes, eternamente....rs). São autores como você que nos dão essa força e nos ajudam a tratar melhor nossos textos para um resultado cada vez mais produtivo!

E, antes que me esqueça, deixei um selo para ti no meu blog, Brisa Noturna, passe por lá e pegue, ok?

http://brisanoturna.blogspot.com/2011/03/selos-de-presente.html

Bjoss e bom fds!

Mirian Fidelis Guimarães disse...

Oi, sou eu novamente, estou sentindo falta de suas postagens... Espero que esteja conseguindo resolver o que quer que seja e que tenha força para proseguir...
Estamos ansiosos por novas dicas!
Abraço

Alexandre Lobão disse...

Grato pela força, Mirian!
Estou meio lento com as postagens, ainda me adaptando ao novo trabalho. Vai cobrando aí, que eu me animo mais a escrever! :)

Beronique, "peguei" o selo lá no seu blog, mas não sei bem o que fazer com ele! ;) Obrigado pelo destaque e interesse!

Anônimo disse...

Eu não paro de me surpreender com a insistência de novos escritor em ignorar a importância da estrutura de cebas. Pensam que basta uma ideia e uma página em branco para escreverem o romance do século. Totalmente pertinente, e realista, tudo o que está dito neste artigo. Parabéns!

Alexandre Lobão disse...

Obrigado pela força e compreensão, "Anônimo". :)


Acho que o problema não são os novos (nem os antigos) que acham que já sabem de tudo, e não acreditam que tudo pode ser aperfeiçoado com estudo e ampliação de horizontes.

A prática, é claro, é o principal mecanismo para melhorar o que se faz bem, e isso que já publicou vários livros já tem de sobra. O problema é que a falta de estudo das técnicas permite que alguns erros se cristalizem e continuem ali, mesmo após muitos livros.

Para mim, todo profissional, em qualquer área, deve buscar SEMPRE se melhorar.

O problema não é ser novo ou experiente na área.

O problema é não ser humilde o suficiente para querer aprender.

Valeu!