28 de setembro de 2011

Mudança de ponto de vista nas narrativas - parte I


lguns leitores do blog me pediram para falar sobre "mudança das narrativas":
  • "Comecei a escrever meu livro há pouco tempo e tenho certa dificuldade ainda com, digamos a passagem de um narrador para o outro. Eu gosto de escrever em primeira pessoa, e gostaria de saber como eu faço para descrever ou não descrever essa quebra de primeira, segunda ou terceira pessoa ao estar narrando minha estória."
  • "Sobre a mudança das narrativas, é um assunto que também me interessa bastante. Pois é uma dificuldade que tenho... não só na mudança em si de narrador, mas no tempo e pessoa que cada narrador usa... me perco um pouco nisso."
Há duas formas de falar sobre esta "mudança de narrativas" ou, para ser mais preciso, mudança de pontos de vista dentro do livro: uma simples e incompleta, e outra que chega ao cerne do problema. Como nem sempre precisamos conhecer a fundo um problema para resolvê-lo, vou falar das duas formas, começando pela mais simples.
Para isso, vou aproveitar o gancho e responder (em parte) uma outra questão, colocada pelo Lance, leitor aqui do blog:
  • "A premissa é o argumento que dá origem ao texto em si, é isso?? Eu chamo de argumento. E chamo de Storyline o seguinte: divido as etapas da história em sub-trechos, e faço parágrafos descritivos de cada sub-trecho desses, de até 3 linhas cada, pra me orientar."
"Regra essencial: Não se começa a escrever uma história pelo primeiro capítulo, nem se termina no último."
Bom, rapidamente, premissa não é o argumento.  Posso voltar ao assunto em futuros posts, por ora se quiser saber mais consulte este post com sobre "Seis passos mágicos para escrever seu livro" e, no blog do parceiro Oswaldo Pullen, o post específico sobre premissa estruturada.
Mencionei este comentário para falar sobre o processo de estruturação da estória que o Lance usa e chama de Storyline.  O nome dado não importa, até porque há vários livros sobre o assunto que dão nomes diferentes para as mesmas coisas, e mesmos nomes para coisas diferentes.  O que quero chamar atenção aqui é para a necessidade de ter um processo de organização da história, seja ele acadêmico ou inventado por você mesmo.
Como já falei em outros momentos, uma história não se escreve do primeiro ao último capítulo.  Nem mesmo se escreve em "capítulos".  Usando os termos do Lance, é essencial que você primeiro divida sua história em etapas, e depois em sub-trechos, e depois escreva um mínimo de detalhes para cada um destes sub-trechos (no próximo post retornamos a isso, com mais detalhes).
O "pulo do gato" aqui é que, para cada "sub-trecho" destes, você defina de quem é o ponto de vista daquela cena, digo, daquele sub-trecho.  Pensando de maneira simples: digamos que você escreveu um livro que tenha duas linhas narrativas, a dos "mocinhos" e a dos "bandidos", e cada linha narrativa destas seja contada do ponto de vista do personagem principal daquela cena. Ora, se são personagens diferentes, a própria linguagem do narrador será diferente - o "mocinho" é culto e o "bandido" é grosseirão isso se reflete na narrativa, mesmo que o narrador esteja em terceira pessoa.
O macete então é óbvio: você precisa detalhar melhor seus personagens. É essencial que seus personagens tenham vida, pelo menos os principais; que você tenha capacidade de "escutar a voz" de cada um, que você possa perguntar algo e ouvir a resposta, como o personagem responderia. Estou falando sério, e não metaforicamente! No momento em que você consegue entrevistar seu personagem e ele te responde com voz própria, você sabe que ele está no ponto. Já dei algumas dicas sobre como profundar seus personagens neste post sobre criação de personagens.
Uma vez que os personagens estejam bem definidos, e a história esteja bem dividida, fica mais fácil "pular" de um ponto de vista para outro. 
Para concluir, uma dica que pode parecer mais radical, mas que funciona muito bem.
Quando escrevi meu romance "O Nome da Águia" tive esta mesma dificuldade de vocês logo no início do livro: ao terminar o primeiro capítulo, precisei mudar o ponto de vista radicalmente para o segundo capítulo. No terceiro, precisei retornar ao ponto de vista do primeiro: nova dificuldade.
Foi aí decidi escrever cada linha narrativa separadamente. Como a estrutura do livro já estava toda organizada, foi fácil escrever os capítulos da linha narrativa 3, depois o da linha 1, depois o da linha 2 (esta ordem fazia sentido para mim, não se preocupem com ela). Ficou muito mais fácil escrever assim, pois não precisava ficar "chaveando" minha cabeça entre os personagens / pontos de vista de cada linha narrativa.
Quando terminei tudo, juntei as três linhas em um só texto e li, pela primeira vez, do início ao fim, para burilar o resultado.  A estrutura do livro, previamente definida, orientou a escrita para gerar uma obra já coesa, os ajustes foram bem pequenos para deixar a primeira versão do livro redonda.
Como falei, esta é a "versão simples" da coisa. No próximo post falamos sobre a versão mais completa, que envolve estrutura da cena e tipos possíveis de ponto de vista.

Gostou?  este post!

11 comentários:

Escritores de Domingo disse...

Olá Alexandre, ótimo texto. Estou seguindo você todas as semanas, quando vejo um novo texto fico bastante animado, e sempre termino o texto satisfeito, embora isso não significa que não tenha algumas duvidas. Por exemplo, eu gostaria que você me dissesse se dentro de um mesmo capítulo eu posso escrever várias linhas narrativas, ou se posso escrever o ponto de vista de um personagem, e no outro parágrafo, o ponto de vista de outro personagem...
Um abraço,
J. Carlos

cervejaerua disse...

Parabéns pelo blog

... é instigante ...
... é ....

Lance disse...

Olá,

Que legal ver um comentário ser citado. Que dirá dois. Estou aprendendo, e tentando alinhavar essas informações sobre como usar todas essas técnicas.
Obrigado por considerar minhas dúvidas e transformá-las em postagem...

Só essa frase, já valeu: "escrever cada linha narrativa separadamente". Estou já aguardando a continuação. :-)

Anônimo disse...

Olá Alexandre, tudo bem ? Sou recém chegado ao seu site e posso te garantir que já ví nele um norteador importante para os novos escritores, como é o meu caso. Tenho uma idéia que considero boa, rica e madura sobre um romance envolvendo vários elementos instigantes de relacionamento afetivo e social, luta, superação, etc, mas que não consigo estruturar. Já iniciei varias vezes o texto e parei, pois em nenhuma delas tive aquela sensação de estar no caminho certo. Acredito que com suas dicas irei encontrar esse caminho que me leve a uma narrativa consistente.
Vou navegar mais pelo seu site e pelos sugeridos e depois volto a te escrever.
Obrigado e um grande abraço
Celso A Pereira

Síglia Cristina disse...

Olá é minha primeira vez no seu blog, já rodei a net em busca de estruturas para comprovar o quão no caminho eu estou de ser escritora,digo se eu sou apta pois creio sinceramente que não basta ser perseverante e querer escrever um livro, uma frase que não sai da minha cabeça, e que eu li recentemente,diz: para ser escritor é preciso talento, criatividade e perseverança.Pois bem, em relação a narrativa do meu livro, sempre optei em escrever na segunda pessoa, pois meus personagens contém uma profundidade muito estreita e singela, seria complicado para mim se fosse na primeira pessoa,certamente haveria horas que seria a mim que a história giraria por mais irreal que parecesse, e há u significado muito profundo para mim por mais camurflado que possa estar na história, eu sinceramente me liberto quando a escrevo, mais claro, sou iniciante, estou ainda tentando apreender os caminhos e siladas da escrita.

Alexandre Lobão disse...

Oi Síglia,
Acho que o melhor escritor é justamente aquele que escreve porque PRECISA escrever; como você falou, aquele que se liberta quando escreve, e não suporta viver preso.
Apareça e contribua, sempre!

Alexandre Lobão disse...

Caro Celso,
Procure pelos posts que falam de "estrutura", mas não deixe de ler as dicas do Stephen King, nos posts de novembro/2011, para ter uma visão do "outro lado da Força".
[]s

Pedro Pinto disse...

Olá, Alexandre! Como sempre, excelente postagem, útil, simples e detalhada.

Gostaria de te pedir duas coisas, se puder, em relação a este post.

- Se puder falar um pouco sobre estórias fundamentadas em personagens (a trama a partir da figura do herói)

- Se puder listar alguns livros, técnicos e teóricos, sobre a arte da escrita, tanto em prosa quanto em poesia. Vejo que você sempre cita alguns, seria legal uma recomendação bibliográfica sua!

É isso, grande abraço, e mais uma vez parabéns e obrigado por esse seu blogue fantástico.

Alexandre Lobão disse...

Oi Pedro,
Obrigado pela força, anotei aqui suas sugestões para futuros posts.
Quanto aos livros, confira este post antigo que dá uma lista bastante interessante de livros sobre a arte de escrever: http://dicasdoalexandrelobao.blogspot.com.br/2010/03/tudo-o-que-voce-queria-saber-sobre-como.html

Anotei aqui também para voltar ao assunto, indicando quais eu acho mais interessantes, ok?
Forte Abraço!

Will disse...

Eu começei a escrever meus livros também e esse lance de ponto de vista é muit interessante mas tinha certas cenas que não davam certo, mesmo. então mudei para uma estrutura melhor, e a história melhorou.

Alexandre Lobão disse...

É isso aí, Will, o importante é o autor experimentar e exercitar diferentes técnicas, até achar as que melhor se adequam ao seu estilo e gosto!
[]s e obrigado pela contribuição!